Ferrol me fecit (pregão de escarnho e mal dizer)

Caríssimos ferrolãos e ferrolterrãos (e no neutro incluo damas e cavaleiros, nada de repetir em masculino e feminino como fazem os que desconhecem as falas filhas do Latim); caríssimos todos:

Aqui me tendes em condição de escrivão, mais de ofício que por inspirado, a falar-vos por convite do alcaide e outros principais desta vila que os cascarilheiros invejosos chamam Podre (como se eles não soubessem de podrémias, sobre tudo de gerifaltes tão podres que o mesmíssimo Satanás já lhes tem acomodo nos Infernos da Política).

Venho-vos convidado pelos que mandam em nome do povo, não pelo bispo de Mondonhedo, que, além de bispo é de fora; mas não coma mim, que de fora sou mas também de dentro, mesmo de dentro de muralhas pois criei-me na que fora Porta Nova de Ferrol.

E por aí vou começar: pelo Ferrol dos barcos e dos sonhos de alto mar, no que se recordam enormes navios a darem nome a uma pátria que chamam Espanha, mal pagadora para as gentes inventoras e obreiras desta terra.

Este lugar curioso acolheu a muitos que, coma mim, vinham de longe mas ficárom para sempre marcados pelo ser diferente, único, desta grande vila e a sua contorna. Houve um mestre das letras inglesas, Graham Greene, que, falando latim macarrónico, disse “England me fecit”: “Inglaterra fez-me”. Emulando-o, Gonzalo Torrente, mestre maior das letras castelhanas (e mágoa que não o fosse das galegas, pois a sua obra está cheia de substância galega, mesmo ferrolã), disse “Ferrol me fecit”.

Eu, apenas prático das escrituras, confesso que, também, “Ferrol me fecit”; e cuido que já o demonstrei com um romance no que Ferrol não precisa ser mencionado, mas que é todo Ferrol, Ferrolterra, um mundo que vai do Ortegal ao Eume.

Em Ferrol aprendi as primeiras letras, na escola primária dérom-me para leitura o Cien Figuras Espanholas, que já assinalava Conceição Arenal como mulher única na História duma Espanha que, com olhos madrilenos, não acaba de ver Ferrol em toda a sua importância no mundo.

Em Ferrol, no Instituto Conceição Arenal, convivi durante uma década com rapazes de “dentro de portas”, de “fora de portas” (da cidadela), desta banda e da outra banda da ria. Companheiros meus de brincadeiras e estudos, amigos marcantes, viriam ser personagens ativos numa mudança histórica na nossa sociedade.

Por dar algum nome, eis João Rubia, companheiro de aula, ou Vicente Aráguas, companheiro de liceu e da Praça de Espanha (como assim se rebatizara o espaço da vila ao que cheguei quando nele ainda mandavam as leiras com verças e batatas); e não esquecerei o companheiro de brincadeira nessa praça, e nos eidos eumeses, que se deu em chamar Andrés do Barro.

Escolho esses nomes de bardos, trovadores, jograis, poetas, mestres da guitarra só como exemplo dos que me obrigárom a ser como sou, pois com eles participei no que mais preocupava os esbirros do generalíssimo Cerilhita, também chamado Franco pelos que não conheciam nomes do Ferrol castiço. Nós gritávamos o renascer duma cultura poética e musical.

A última vez que dei discurso nesta cidade única, na sua Praça de Armas cheia, esperava a que eu acabasse de falar, para ela cantar, uma cascarilheira que se atrevera a dizer que o galego não serve para a canção, uma nachinha que seica lhe chamam Marta Sánchez, que desentoa em castelhano e cuida que o faz em inglês.

E hoje vem-me à memoria esse momento, o discurso em que falei do “português mais galego de todos”, o professor Manuel Rodrigues Lapa, porque vos vou falar dos ferrolãos que mais fizérom pela língua galega, os que mais longe a levárom pelo mundo: Andrés do Barro e Ricardo Carvalho Calero, nunca reivindicados davondo.

A ficha da brigada social da polícia franquista assinala-nos aos que andávamos no movimento da canção galega como perigosos ativistas culturais, sobretudo o Andrés do Barro, porque, apesar do que disse a Marta pequerralha, o Andrés conseguiu quatro discos de ouro em Espanha cantando em galego, enquanto o seu admirador (e admirado, que a admiração entre eles foi mútua) Joan Manuel Serrat não chegava ao ouro nas vendas cantando em catalão.

Desde os tempos medievais que hoje celebramos, de Ferrol não saiu um trovador que enchesse com a sua trova os ouvidos, as almas e as bocas de todos os espanhois. Espanha inteira aprendeu a dizer “Corpinho jeitoso, tenho saudade, o trem que me leva, rapazinha nova…” graças ao génio dum rapaz de Ferrol. E chegou a onde os antigos jograis não conseguiriam chegar pois daquela o Novo Mundo era só uma suposição além do Mar Tenebroso. Do Barro fez cantar em galego as Américas. México, Brasil e a Argentina cantárom o que ele oferecia com voz escassa e carradas de coração.

No próximo ano 2017 Andrés faria 70, mas não viveu para ser um velho respeitado como o Joan Manuel Serrat. Outro ferrolão cheio de talento, músico como poucos deu a Galiza jamais, Antom Seoane, tem preparado um disco de homenagem ao amigo ido antes de tempo. Pronunciar o nome Seoane, lembrar Milhadoiro, e associá-lo à máxima qualidade duma produção musical é imediato.

Se a isso acrescentamos que o disco vai acompanhado por uma biografia do Andrés que escreve Vicente Aráguas, podemos imaginar a perfeição do que juntam três ferrolãos de talento esmagador. Mais, fora do futebol (que é droga das massas, feitiço dos povos modernos), seica não há dinheiro.

Estamos em consegui-lo para pormos a andar a produção do disco-livro de honra ao Andrés do Barro que assinam Aráguas e Seoane. Aqui e agora proponho uma coleta, que deveria iniciar-se no concelho em cujos registos de nascimento ficam assentados esses nomes…

Ferrolãos e ferrolterrãos nados na vila, vindos de fora coma mim, todos: Ferrol não é bem tratado fora de Ferrol, em cidades como Madrid ou Santiago, lugares sem mar, sem possibilidade de sonharem mundos de além dos ventos e as ondas. Tal como Madrid condenou à destruição uma indústria naval que custara séculos levantar, Santiago esquece o que ferrolãos senlheiros fizérom pela cultura galega.

Compostela tem muito de toco de toupeira e as toupeiras não entendem de luz, de brilhos. Por isso nunca haverá homenagem de toda a Galiza nem ao Do Barro nem ao Carvalho Calero, a não ser que as hostes ferrolãs, descendentes de irmandinhos e de sindicalistas anarquistas, algum dia se apresentem no Obradoiro e em São Caetano a mostrarem os seus poderes.

E digo no Obradoiro e em São Caetano porque é onde reside o verdadeiro poder. Por que ao Andrés do Barro nunca se lhe concedeu, tristemente a título póstumo, nenhuma das medalhas com que o Governo Galego enaltece valores de galegos sem igual? Que méritos têm cantantes que nem invadírom amavelmente a Espanha com a sua arte e nem estão vigentes cinquenta anos depois dos seus triunfos? Quanto há de silêncio desta cidade, e da sua comarca, acerca do Andrés Lapique Dobarro?

Aos finais da Idade Meia um mestre da poesia culta castelhana reconhecia que, até pouco antes, aqueles que quisessem trovar na Castela haviam de o fazer em “lengua galiciana”. Pois no último terço do século XX, um ferrolão volveu-a pôr na moda em Castela e noutros reinos das Espanhas.

O fenómeno das baladas do Andrés do Barro foi observado com curiosidade crítica pelo grande professor da língua galega que nascera na rua de São Francisco do Ferrol Velho. Não tardou em dizer-lhe a quem vos fala que aqueles versinhos cantados tinham tal repercussão que podiam fixar idioma, pois os idiomas fazem-se por repetição de formas que ganham adeptos.

O professor Ricardo Carvalho, filho do Ferrol Velho, fez com o galego duas coisas fundamentais: depurá-lo, levando-o às suas origens, liberando-o dos castelhanismos que o converteram em castrapo; e projetá-lo ao mundo, com ajuda do professor Manuel Rodrigues Lapa, catedrático português, e do professor Ernesto Guerra da Cal, catedrático em Nova York, outro ferrolão ao que nunca a Galiza reconheceu méritos davondo.

Só a inveja das toupeiras compostelãs (que compostelãs fazem-se todas à procura de prebendas) pode dar explicação à guerra que lhe fizéron a Carvalho Calero, que as ofendia com a sua brilhante mordacidade quando as avisava de que o galego “ou é galaico-português ou é galaico-castelhano”.

Em 1983, quando se fixou a norma atual do idioma, triunfou o galaico-asturiano, por não lhe chamarmos galaico-castelhano. Isso faz com que hoje todo o mundo, começando pelos insensatos e insensíveis que assim se apelidam, pronuncie Rakhoi e Feijhó o que se deve pronunciar Rashoi e Feishó. Já com a retranca que o distingue, o Carrabouxo pintou o Mariano da Víri de Pontevedra com a frase “Soy Mariano Rajoy y voy a Raxoi a una junta de la Xunta”…

A argumentação de Carvalho, Guerra da Cal e Lapa a favor da ortografia histórica do galego serviu para que algumas toupeiras galegas e uma toupeira asturiana (metida no que nunca se lhe deve permitir a um galego irredento, como são a metade dos asturianos), carregassem a artilharia com pólvora de Madrid, a do “sano regionalismo”, e triunfasse o que faz do galego uma língua escrita à maneira que lhe custa trabalho ler aos 250 milhões de pessoas que no mundo fórom escolarizadas em português.

Como sabeis, a que poderíamos chamar Irreal Academia do Impaís todos os anos escolhe uma personalidade para o Dia das Letras Galegas. Desde há muito vem-se pedindo aos académicos que escolham Ricardo Carvalho Calero, mas ano trás ano fracassa a sua candidatura. Por que? Porque escolher o professor ferrolão, e lembrar a sua obra ingente, daria lugar a que se desmoronasse a estrutura que permite pronunciar Rakhoi e Feikhó.

Não vou ser eu quem proteste porque o ano passado triunfasse a candidatura de Manuel Maria, amigo entranhável, quem na igreja do castelo de Monterrei me investiu cavaleiro da mais gloriosa das confrarias da galeguidade, a Irmandade dos Vinhos Galegos, nem que este ano triunfasse a do Carlos Casares, quem me salvou das insídias do mouro traidor de Compostela e dos roubos do impressor clandestino de Pontevedra.

Gloria eterna hajam o poeta da Chaira e o narrador da Límia; mas já fede que siga abafada a Luz das Letras galegas da Ferrolterra. E pouco se pode fazer enquanto seguirem vivos e ativos sujeitos que manejam a academia com a ideia pailaroca de que aos galegos bem lhes chega com o castelhano para se entenderem pelo mundo…

E bem, já vos dei maçada davondo, já vos interrompi a festa mais do que se lhe pode pedir a um feirante que veio divertir-se. É-me hora de despedida e vou fazê-lo em referência a outro ferrolão do que pouco se sabe, ao que se deve a direção da greve revolucionária que por maior espaço do mundo se estendeu, a dos peões das estâncias da Patagônia argentina.

Pensemos como pensava aquele António Soto, anarquista nascido ao lado da ferrolã praça do Calhau e que jaz em Punta Arenas, no cemitério do grande porto do Estreito de Magalhães: tenhamos em conta que, quando algo se quer, é preciso juntar a gente e repetir-lhe que todos se devem manter na razão da sua luta. Seriam mil os rebeldes fuzilados naquela toma de postura sindical de há quase um século, mas os sobreviventes conseguírom que se cumprissem as suas reivindicações de operários decentes.

Amigos, que o espírito irmandinho não decaia. Grite Ferrol ao mundo que é diferente e que desta vila carregada de História saírom personagens únicos, inveja doutras vilas que sabem gritar como são. Invejem elas a poesia profunda do ferrolterrão Fernão Esquio, do que vou ler poema de adeus por hoje, e não vai ser cantiga de escarnho contra abades e abadessas luxuriosos, mas uma trova de amor que atravessa seis séculos de História e ainda toca o coração de quem a escuta:

Vaiamos, irmã, vaiamos dormir

nas ribas do rio u eu andar vi

as aves, meu amigo.

Vaiamos, irmã, vaiamos folgar

nas ribas do lago u eu vi andar

as aves, meu amigo.

Nas ribas do lago u eu andar vi,

seu arco na mão as aves ferir,

às aves, meu amigo.

Nas ribas do lago u eu vi andar,

seu arco na mão às aves tirar,

às aves, meu amigo.

Seu arco na mão às aves ferir

e às que cantavam deixa-las guarir,

às aves, meu amigo

Seu arco na mão, às aves tirar,

e às que cantavam não as quer matar,

às aves, meu amigo…

¡Viva Ferrol! ¡Longa vida aos seus poetas: aos que fazem barcos e aos que cantam poemas!

Nota: Este discurso foi lido na Feira Medieval de Ferrol de 2016.

[Palavra comum – Artes de letras da lua nova, 15/08/2016]

Do exterior ao interior

O passado 21 de Julho foi apresentado o documentário Porta para o Exterior na Livraria Berbiriana da Cidade Velha da Corunha, belíssimo espaço de encontro para os que acreditamos firmemente no erradamente chamado reintegracionismo (pois deveria ser chamado simplesmente integracionismo). Houve visão do trabalho, aplausos para os que o fizeram e comentários de todo tipo.

Na minha condição de velho a quem se lhe deve perdoar tudo, falei e disse que há por volta de cinquenta e cinco anos que descobri uma língua negada aos que nascêramos espanhóis: o português; mas que a descoberta fora peculiar pois à minha mão chegavam então livros de aventuras da selva imensa do Brasil.

Também contei que em 72 fui trabalhar em Lisboa e ao pouco entrava em contato com o professor Manuel Rodrigues Lapa; e como, passando o tempo, tive a sorte impagável de receber lições tête-à-tête de Lapa, Carvalho e Guerra da Cal, a tríada de professores mais odiados pelo establishment espanholista da Galiza (no que incluo notórios “galeguistas”).

Assim foi, e com essa bagagem cheguei ao momento histórico da Lei de Normalización Lingüística e às guerras fratricidas que conduziram ao que mais me preocupa na atualidade. Volvendo ao documentário, admito que hoje há na Galiza um ambiente bom para a gente do geral aceitar o que eu já aceitei há onze lustros; um fato é a unanimidade do Parlamento Galego sobre a Iniciativa Legislativa Popular Valentín Paz Andrade. Qualquer galego minimamente viajado e lido reconhece que o português é um dialeto –com Estado (melhor dito, com estados)– do galego histórico, altamente rentável para adquirir conhecimento e fazer negócios.

Ora, para mim o problema quanto à confusão linguística no Impaís Galego neste momento não é tanto do ódio ao próprio e ao imediato (galego e português) como da dissolução do galego no castelhano de maneira que, com independência das grafias, o escrito não vá ser inteligível pelas pessoas às que os galegos universalistas se quiserem aproximar.

Tem-se argumentado com todo tipo de razões que o passo da grafia “demótica” (definição do professor Ricardo Carvalho) do galego à integradora dar-lhe-ia ao escrito uma projeção para além do Minho e dos mares. Carvalho e Guerra da Cal trabalharam nessa ideia (vejam-se as suas obras em destaque. Pense-se na versão dos poemas galegos de Rosalia feita por Guerra). Contrariamente, Rodrigues Lapa sempre me recomendou escrever com morfologia portuguesa e esquecer o galego salvo para “pérolas enriquecedoras” (todas elas, vozes abandonadas pelos portugueses; alguma, viva no Brasil).

Muito bem. Porta para o Exterior 300Mas o problema de verdade é que, graças aos média produzidos em Madrid, em toda Espanha impôs-se uma língua nova que penetrou no galego e está a dar cabo dele (como a RTP impôs em todo Portugal o lisboeta de vogais “engolidas” que não percebem os brasileiros).

Para mim, a batalha está em liberar o galego de excrecências do madrileno cheli antes de fazermos o ridículo de escrever (porque assim se pensaram) frases como “molava-me muitíssimo folhar com essa tia” ou “comeu-se o coco para baixar-se da web o programa”, ou “já tinha levado imenso curro para a casa”…

Nem cheli madrileno nem calão lisboeta (embora o calão surja de dentro do português). Nem aparência “asturiana” do galego nem morfologia portuguesa: “jeito” e “gesteira” sempre se escreveram assim em galego; “falaches” e “dei-che” são as formas galegas, “falaste” e “dei-te”, as portuguesas.

Como fazer? Proponho falar galego livre de gíria madrilena (e de formas exclusivamente portuguesas) e escrevê-lo com grafia etimológica; ou, então, falar e escrever em português normativo, talvez introduzindo nele galeguismos (sem esquecermos o escrito por Guerra da Cal: “Todo o galego está contido no português”).

Nos amistosos petiscos após a apresentação do documentário falou-se de ter conversas com a Administração Galega, as editoriais e os meios de comunicação para lhes mostrar o que se manifesta em Porta para o Exterior. Nesses encontros bem se lhes poderia pedir a políticos, editores e chefes dos média três esforços conjuntos: um em contra do madrileno (que está também a poluir o castelhano), outro para ensinar a grafia galega que desterrou a Lei de Normalização Linguística… como passo prévio, ambos, o de abrir a Galiza ao ensino do terceiro idioma europeu com maior projeção no mundo.

E termino com o comentário dum colega, professor em Aveiro mas nativo de terras de socalcos à beira do Douro: “Eu adoro ler romances dos autores galegos. Só que tanto xis chateia…”

O dito: para a solução do problema, quiçá fosse suficiente com galego em grafia histórica e boa vontade dos lusófonos (não conheço galego culto que se sinta chateado ao ler em português. Faça a outra parte –a portuguesa– um pequeno esforço… e todos amigos).

[Palavra comum – Artes de letras da lua nova, 28/07/2016]

Etimologias escuras duma luminosa mente

ÀsHigino Martins Etimologias Obscuras vezes encontra-se um livro que se converte, logo ao começar a lê-lo, em sujeito de releitura, instrumento de consulta.

Há uns meses tive o prazer de escutar na Livraria Suévia da Corunha o professor Higino Martins Esteves. Encontrava-o nesta banda do Atlântico quando não muito tempo atrás o encontrara além do Oceano, em Buenos Aires, concretamente na Federação de Sociedades Galegas, onde ele ensina “português da Galiza”.

A Higino Martins e a mim unem-nos muitos pensamentos e sentimentos sobre o país que passou a ser impaís, a Galiza, e sobre um despaís que não consegue sair dessa condição, a Argentina. Temos paixão comum pelos nomes das coisas, das pessoas e das famílias, com a diferença de que ele é um profissional das línguas humanas e eu só cheguei a conhecer as línguas de máquina inteligente.

Ainda mais, diria eu que ambos temos tendência natural para chamarmos a atenção e fazermos advertência. Salvando grandes distâncias na Ciência e no tempo, atrevo-me a dizer que o professor Martins se parece a Darwin como eu me pareço a Wallace. Ele tem imenso conhecimento das línguas vivas e mortas; eu ando a tomar nota do que vejo e escuto.

Por exemplo, desta volta na Corunha assinalei-lhe que Martins é apelido com muito escassa presença no Impaís Levitante, enquanto as formas Martiz e Martís conseguiram resistir à castelhanização como Martínez. Nas necrologias publicadas nos jornais galegos aparecem repetidos os <<Sr. Fulano Martínez… “de Martiz” u “de Casa Martís>>. Não registo Martins nestes casos.

A resposta do amigo Higino (Martínez segundo os papelinhos de imigração familiar à Argentina) ao respeito teve a ver como o que ele considera que corresponderia aos pagos de onde procede, à zona onde “filho de Martim” dera em Martins…

Nada a criticar. Higino Martins Esteves (não Estévez, que poderia ser, pois não há tanto que as formas de patronímicos galegos e portugueses coincidiam) é um homem matemático, como são todos os filólogos: a Filologia é ciência estrita, de vectores de força…

E é assim, matematicamente, como está redigido um tratado fundamental para mim, que lá se apresentava na Suévia corunhesa: Etimologias obscuras ou esconsas. Advertiu-nos o autor de que a obra era para ser lida “a modinho”, aos poucos, hoje um par de vozes, amanhã outro par delas… e isso fiz eu, durante uns meses e em diversos lugares. O livro de Mestre Martins veio comigo, foi lido em cabines de avião e camas de hotel. Afinal, chegando à palavra “Varela”, tinha a sensação que sempre tenho quando gosto dum romance: não quero que acabe. Mas acabava uma longa ladainha de palavras ordenadas de maneira alfabética, e alfabeticamente espremidas pelo professor argentino que se define galego.

Acabei o livro e volvi sobre ele, às páginas que assinalara com marcadores diversos, de cartões de embarco a pedacinhos de guardanapo. Algumas etimologias ficaram-me gravadas a fogo, como a de “Portugal”, que jamais teria eu relacionado com Vila Nova de Gaia se não fosse pelo tratado de Martins Esteves.

A tese do professor, subjacente em toda a obra, é que a gente da Península Ibérica falava língua céltica ate ao século XI, de forma que uma imensa quantidade de vocábulos que admitimos como vindo do Latim corrupto para as falas romances realmente já foram recolhidos desde a fala do povo para a língua do Império.

Foi assim? Assim o defende o investigador com teimosia e referências que nos levam a idiomas provados e ideados. É um prazer grande seguir-lhe o fio dos razoamentos até acertar nas origens de qualquer termo, desde o verbo “abraiar” ao apelido “Vásquez” (ou “Vasques”). Como uma máquina disposta a derrubar muros erguidos por velhas auctoritates (incluído Coromines, a quem dá cancha frequentemente), o gênio de Higino Martins muda o mapa da Gallaecia e mesmo da Hispania. Depois de lermos Etimologias obscuras ou esconsas esse mapa nunca será como foi. Mesmo fica aberto para provocadas destruições. O Mestre deixa discípulos.

[Palavra comum – Artes de letras da lua nova, 03/03/2016]

Maria do Ceo, portugalega de honra

Os galegos fazem clara diferença entre “lume” (de arder) e “fogo” (de explodir, com pólvora). Os portugueses (que bem conhecem os valores das duas palavras) inclinam-se por confundi-las. Os galegos dizem que “há lume no monte”; os portugueses alarmam-se de que haja “fogo na floresta”. Mas uns e outros falam em “armas de fogo”… Como repetia o grande professor Ernesto Guerra da Cal, “Todo o galego está contido no português”; ao que outros respondem que “o português é galego falado com vícios de Lisboa”.

Hoje andamos de novo entre lumes acesos sobre como escrevermos o galego, sobre as coincidências de fala e escrita que alguns “académicos” tentam ocultar… Mas vamos deixar a coisa aqui e falemos de música, das pontes sobre o Minho e do muito que fica por fazer para que se conheçam bem as gentes duma banda e da outra do Rio Pai.

Isto vem ao conto de que se está a apresentar um trabalho trans-fronteiriço e emocionante titulado De Portugal a Galicia Fado (sic, nem sequer Galícia, como escrevem os brasileiros). A autora é a Maria do Ceo (não Céu), cantante que vai escalando degraus na simpatia dos povos da Gallaecia e a Lusitania. Ela é uma mulher de duas terras que não lhe dividem o coração: o seu coração é de toda a parte onde a gente entende a fala comum. Nasceu portuguesa mas as circunstâncias da vida fizeram dela galega, por sinal dos áureos pagos de Ourense, a cidade que se deixa beijar pelo Minho.

A senhora dona Maria do Ceo (que em boca de galego soa a “céu”) tem uma voz límpida, penetrante, e uma dição para lições de galaico-português, pois é capaz de distinguir subtilezas entre as falas do Norte e a que se impôs a força de poder político desde o Sul (“um idioma não é mais do que um dialeto com um exército a respaldá-lo”). Ouvindo-a cantar, volve à mente de quem a escuta (e sabe de História) aquela velha cantilena de “Ai, se a capital de Portugal tivesse sido o Porto: não haveria nem português nem galego, mas a mesma língua”.

Acompanhada por músicos certeiros, a Maria arranca com força de fadista pronunciando um português não lisboeta mas universal, capaz de impactar nas almas de todos os africanos e os americanos que não sofrem as “derivas oficiais” desde o calão da Mouraria servidas pela RTP. Maria do Ceo canta em português do Norte peças emblemáticas do fado da beira do Tejo. Para os seus fãs de aquém-Minho é um agasalho: as vogais da cantante são as dos galegos e as dos brasileiros, não engolidas, obscuras, como as das senhoras das casas de fado de Lisboa (ou as suas imitadoras no Porto).

Ora, chegando a como modula a língua da Galiza, chapeau, madame do Ceo: nova lição para certas cantantes galegas incapazes de pronunciar com jeito todos os fonemas da sua Mátria (notoriamente o “elhe”, tão galego como português). A sua versão “celestial” dos meus versinhos de mocidade faz-me brotar água nos olhos. Que bem me soa!

E devemos aplaudir-lhe a escolha de canções galegas que fez para disco e palco. Cumpre-me não cair na emoção gratuita quando vejo Tenho saudade entre elas. Já foi dito mil vezes que é “a melhor balada da história da canção espanhola moderna”. A Maria do Ceo supera a versão de Andee Silver (e não sabemos se a do Júlio Iglésias, que nunca publicou por tristes questões “monetárias”). Dá no alvo. Era fácil. Como dizia a minha avó, “com presunto todos os pratos têm gosto”.

Mas esta mulher valente não fica tranquila com um “número 1” nas listas do pop espanhol (casualmente cantado em galego pelo genial Do Barro). Ela introduz um repertório “sem respaldo de Madrid” (falemos claro: em Portugal só existe o que existiu em Madrid. O Eixo Madrid-Lisboa é fortíssimo). A Maria atreve-se com clássicos galegos desconhecidos no além-Minho, como um Negra sombra que causa arrepios, um Lela que faz namorar a qualquer alma sensível (outro génio por trás da canção: Castelao)… Não esquece as canções do povo anónimo e mesmo faz belíssima homenagem àquele homem consciente da “galeguia” global que se chamou Carlos Casares Mourinho…

Desde este recanto da Palavra comum vaia o meu aplauso à Maria do Ceo, portugalega ativa, empenhada em mostrar o que mais a inspira como cantante nas duas partes duma nação natural (que a política dividiu e ela une com paixão de artista). Todos os galegos ficam-lhe com dívida pois, no momento de fazermos contas, a proporção deles amantes de Portugal é muito maior do que a dos portugueses sequer interessados na Galiza (“quatro molestas províncias espanholas” que lembram as origens da nação conquistadora de mares e terras longínquas para os nacionalistas portugueses, ainda alimentados pela historiografia oficial do Estado Novo).

[Palavra comum – Artes de letras da lua nova, 21/01/2016]

Democracia gráfica

Três assuntos diferentes mas relacionados provocam estas notas. Um é a recente campanha eleitoral, quase bélica, das eleições “plebiscitárias” catalãs; outro, a edição pela Real Academia Galega duma listagem de apelidos galegos castelhanizados e retornados à sua versão galega “normalizada”; o terceiro, o VI Congresso da Associação de Escritoræs em Língua Galega, celebrado em Pontevedra o passado 26 de setembro. Começando pelo primeiro é preciso fazer uma comparação entre como os políticos e os locutores dos meios de comunicação de toda Espanha se esforçaram por pronunciar à catalã os apelidos (não vamos a mais palavras) dos políticos catalães frente aos dos galegos, e podemos estendê-la aos esforços dos media extra-espanhois, nomeadamente os portugueses. Entre-se em Youtube e recolham-se os trechos de manifestações de fala ao longo dessa campanha. Vá-se ao sítio da RTVG na web e ponha-se ouvido. Quem faça isto último logo verá que triste é a situação da língua galega, que ruim porvir lhe espera à matriz do sistema galaico-luso-africano-brasileiro.

Ao longo da contenda eleitoral nunca se escutaria pronunciar Jordi Pujol como Khordi Pukhol. Os seus grandes inimigos (os de “Jordi, enano, habla castellano”) fizeram sempre o intento de pronunciar pelos menos um aceitável Yordi Puyol. No entanto, ninguém tentou pronunciar Rajoy ou Feijóo como Rashoi ou Feishó. Os locutores das cadeias francesas e inglesas lutaram por dizer Ragggoi e Rahoi respectivamente. Os da RTVG teimaram no absurdo de khekhear a fundo. Nesses dias volveu ao recordo de muitos galegos conscientes aquele chiste famoso do Carrabouxo contra a inconsciência linguística do governante galego que zelosamente guarda no armário político o seu avô galeguista: “Soy Mariano Rajoy y voy al pazo de Raxoi”.

Há tempo que a Real Academia Galega recebeu encargo, da Junta de Galiza, para se manifestar acerca da correção dos apelidos galegos. Podemos pôr em questão se a RAG deve ser ou não o órgão oficial encargado de matérias de idioma. Repassando a lista dos seus membros logo se vê que boa parte deles não tem a mínima autoridade a justificar tal encargo, mas sim há outros que a têm. Detenhamos logo a crítica neste ponto, concedamos-lhe a virtude (“Valor se le supone”, como na cartilla da mili) e vaiamos à listagem confeccionada.

Tem uma crítica difícil de rebater pelos académicos: está feita para adaptar os apelidos galegos a uma forma gráfica que jamais tiveram. Por exemplo, faz normativo Sanxurxo a partir de agora quando sempre (desde que o galego se escreve) foi Sanjurjo; ou Xestoso, quando sempre se escreveu Gestoso; para não falarmos dos mencionados Rajoy e Feijoo, os quais aparecem na lista como Raxoi e Feixó. Contudo, a Academia acerta noutros casos como Seixo ou Ameixeiras.

¿Que pode haver trás do empenho académico acientífico? Política.

Sim, e que ninguém se assombre: há política guiada pela mesma falta de visão que levou o galego à norma oficial. Essa falta de visão faz com que o mundo inteiro imite os absurdos de Rakhoi e Feikhó.

Como –estou seguro– a maioria do público leitor de Palavra comum é gente nova (benditos os que me vão pagar a pensão), quisera que me permitissem navegar no tempo para trás e situar-nos na altura em que redigimos (e desenhamos) o original de O galego hoxe, a gramática mais vendida jamais na Galiza. Encargou-lha La Voz de Galicia à “equipa de língua” da Agrupação Cultural O Facho. Por fortuna ainda somos deste mundo todos os intervenientes naquela aventura de há quarenta anos, e podemos falar.

Nesse momento histórico, quando o grito das manifestações era “Galego na escola”, enfrentamo-nos à questão gráfica e decidimos optar pela solução que o professor Ricardo Carvalho chamava “demótica”. Partíamos duma absoluta castelhanização, uma escolarização na que só importava a forma visível do castelhano; ainda mais, durante séculos a educação administrada pelo Estado Espanhol na Galiza negara a existência de Portugal (ainda lembro o professor de Literatura do liceu que, falando ao voo de autores portugueses, mencionava Eca de Queiros, incapaz de pronunciar sequer Esa de Queirós).

Por tanto, e de acordo com o editor, armamos aquelas quase 200 lições dum jeito “pre-autonómico”. Ora, fizemo-lo com a advertência firme de que o galego não se devia escrever assim porque sempre mostrara na escrita formas menos simples, distintas das castelhanas. Dois membros da equipa, o José Maria Monterroso Devesa e eu, embora sendo novos, levávamos muitos anos de contato com a realidade dum galego transcontinental, universal, e usávamos a grafia histórica.

Nessa altura já começara a guerra entre enxebristas e lusistas. Todos mantínhamos que o importante era elevar o idioma de categoria social, começando por metê-lo na escola e nos meios de comunicação. Ninguém colocava a hipótese de abandonar a morfologia e a fonética galegas. Mas alguns advertíamos das consequências de escrever em demótico: uma delas, que a gente vise o iota galego como jota castelhano, e em paralelo os fonemas ge e gi.

A batalha seguiu, intervieram figuras do peso mundial de Rodrigues Lapa e Guerra da Cal, junto com Carvalho, e, frente a elas, moviam-se jogadores de segunda divisão que não viram mundo nem pelo furado da porta. No meio, apareceu uma geração de professores novos que tentaram as “soluções de compromisso” para a grafia do galego.

Essas soluções trariam duas vantagens para os alunos da matéria: a puramente científica (as coisas são como se podem demonstrar) e a político-cultural (a bandeira visível duma língua é a sua grafia independente). Esta segunda, no caso galego, levar-nos-ia à aproximação gráfica, facilitadora, do mundo cultural ao que pertence naturalmente a Galiza, que não é o hispano-americano pois o castelhano é língua imposta, a ferro e crucifixo (a Igreja Católica muito ajudou a serem os galegos “un pueblo de almas rendidas”).

Dois digníssimos galeguistas míopes que não tinham viajado, Pinheiro e Filgueira, levaram a Galiza a que hoje triunfem Rakhoi e Feikhó; a que se mantenha o absurdo de “Yo soy Rakhoi y voy al pazo de Rashoi” (como o deveria ter escrito o meu colega –da engenharia de Telecomunicação– Carrabouxo). O reintegracionismo resiste desde a fortaleza da AGAL, mais não tem audiência pública. E, no entanto, os galegos teimam em que os seus filhos aprendam uma língua impossível de pronunciar com jeito como é o inglês: pelo visto, os meninos podem aprender os sons corretos de jumping ou Geology mas nunca os de juntoiro ou de gentalha. Nascem com os neurônios prontos para imitarem fala alheia e sem sinapses para a própria…

¿E pode ter esta diglossia tremens alguma saída racional?

Retornemos a Pontevedra em tarde de bruma outonal. Entremos numa sala que permite ver a ponte nova do Lérez. Participemos na discussão sobre a Lusofonia que mantêm duas dúzias de escritores em galego. Ouçamos o que dizem. Resumamos.

Alguém recorda que o atual presidente da RAG acusava o professor Manuel Rodrigues Lapa de “colonialista”, pois o “português mais galego do mundo” (frase de Lapa sobre si) incitava os escritores galegos a se abrirem à comunidade lusófona escrevendo em português normativo… mas conservando as peculiaridades léxicas galegas. E ainda hoje mantém tal tese o senhor Alonso Montero, ou Afonso Monteiro segundo a listagem que fez a entidade presidida por ele.

Dentro da “Irreal Academia do Impaís” há outras personagens, como o senhor Lorenzo (Lourenzo segundo lista que ele assinou), às que lhes faz mal sentirem falar de Carvalho ou de Guerra da Cal, quem praticaram o ditado de Lapa num formato que se aproxima da morfologia do galego, sendo fácil de entender pelos luso-escreventes.

¿Devemos seguir a suposta auctoritas desses académicos incoerentes, que mantêm o “espírito da colónia” (da Castela) nos seus apelidos? Obviamente, não.

Mas hoje está pode-se ativar com vontade política a Iniciativa Legislativa Popular Paz Andrade, em memória do académico empresário com muita geografia ao lombo, defensor da galecidade e da galeguia mundial. Na possibilidade de termos o português como língua do bacharelato na Galiza, ¿como vão reagir as mentes ágeis do alunado ante a rentabilidade duma grafia galega demótica, “não necessária”?

No fundo da grafia castelhana do galego há uma visão da Espanha desde a Caverna Madrilena (que eu faria mais extensa, com o Ave pelo meio: a Caverna Madrileno-Sevilhana). Nessa visão, a Galiza é uma província como as Astúrias, sem direito mais que a “dialeto”, como o bable, escrito com grafia “nacional”. Outra grafia, próxima da do português “separatista” é um atentado à unidade da Espanha.

Todos os escritores da reunião de Pontevedra aceitaram a ideia da “democracia gráfica” pela que advogaram assinaladamente Vítor Vaqueiro e Alfredo Ferreiro:

Ofende a razão que se obrigue os escritores a escreverem o galego com uma grafia chocante para qualquer pessoa com conhecimentos linguísticos e vontade de projeção ao mundo.

É uma vergonha que os concursos literários na Galiza estabeleçam nas suas bases a rejeição das obras apresentadas se não se adaptarem às normas gráficas da RAG.

Ofende a razão que a Junta negue a compra de exemplares para as bibliotecas de obras que não estiverem escritas em “normal”.

(Por vezes convém lembrar aos mais papistas que o Papa os atrevimentos gráficos demóticos de algum gênio da Literatura Castelhana como Juan Ramón Jiménez, felizmente fracassados)…

Nas conclusões do Congresso ficou claro que a AELG deixa em liberdade absoluta os seus membros para elegerem o formato gráfico do galego no espaço de publicação de cada um dentro do sítio da Associação na web; e reclamar dos administradores da Cultura da Galiza essa mesma liberdade.

Esperemos que a Universidade (onde devem mandar razões, não ideologias) entre no jogo de democracia gráfica que promovem os escritores. Os velhos enxebristas culpáveis de trinta anos de atraso no desenvolvimento do galego –como língua à defensiva dentro dum sistema diglóssico– já passaram à Historia ou estão no seu declínio profissional. Das faculdades saem filólogos capazes de viajar e manejar grandes bases de dados. A Sociolinguística já não é curiosidade mas ciência consolidada.

Façam-se estudos e demostre-se a rentabilidade duma grafia do galego comum com a da Lusofonia. No entanto, que ninguém reprima aqueles autores que optarem por experimentar com códigos coerentes mas diferentes. Façamos país do Impaís Desnortado.

[Palavra comum – Artes de letras da lua nova, 01/09/2015]

Do espanholego ao galespanhol

No mundo nada tem feito tanto pela uniformidade linguística como a televisão. Sem dúvida que o rádio já apoiara o processo, sobretudo as “cadeias nacionais”. Mas a televisão foi o instrumento decisivo, pois faria com que as famílias se parassem embobadas diante do novo bezerro de ouro.

Acerca disso, permitam-me reclamar a suaatenção a um texto meu, uma fabulação, que teve sucesso (e mesmo prémio) no seu dia, quando na Galiza ainda nem sonhávamos com uma “rádio autonómica”, nem muitíssimo menos com uma televisão do Impaís. Naquele conto, titulado O Larvisión, fala-se dum país, Além-Montes, dominado pela Centrália, que introduz a presença contínua do idioma centralês nos lares alenmonteses graças a um sistema holográfico de tele-difusão.

Muito tempo atrás (quem escreve lembra bem acontecimentos de há sessenta anos), quando os veraneantes madrilenos (centraleses) na Galiza (Além-Montes) ouviam falar os indígenas em castelhano, chegavam a exclamar “Parecen extranjeros!”. Porque, simplesmente, até a aparição da televisão na Galiza (aos começos dos anos 60 do passado século), a gente conservava a fonética e a prosódia do idioma patrimonial.

E muito mais. Mesmo poderíamos dizer que se falava um “espanholego” cheio de termos do património próprio e de custosa tradução. Como exemplos a voo de tecla valham “nacida”, “piola”, cativo”, “corredoira”, “robaliza”, “cachelo”, “billarda”, “careixón”…

Hoje, logo de trinta anos de Televisión de Galicia (e ainda mais anos de Radio Galega), mesmo com estes instrumentos ativos teoricamente a favor do galego, a pressão dos média espanhois é tal que o “galespanhol” se impõe na Galiza.

Não há muito que um colega irlandês, interessado nas línguas minoradas da Europa, me confessava que ele anda a detectar falas ou substratos delas por como lhe soa “a música dos falantes”; e que nos últimos tempos (ele visita-nos com frequência) observa como “na Galiza já não se ouve galego, nem na boca de gente que acredita falá-lo”.

O atento irlandês refere-se ao fenómeno do “neocastrapo”. Para ele, os galegos que falavam castrapo –o patois cheio de aproximações aos termos da “língua A” no sistema diglóssico– faziam-no em galego –língua B– pois, no fundo, as falas são cadeias de sons. As línguas soam, e há umas décadas na Galiza havia um extenso rumor galaico.

Ora, quem hoje ouça falar o Presidente da Junta da Galiza ou o seu ministro da Economia, sentir-se-á confundido, pois o discurso desses senhores soa a madrileno. Feijó e Conde dão mostra paradigmática do fenómeno linguístico: sendo galegos, de zona de fala natural enxebre no coração da Galiza, anos de permanência em Madrid mudaram-lhes os mecanismos da articulação da fala.

E a isso há de se acrescentar um segundo fenómeno (com licença dos filólogos pelo atrevimento). Ele é o da “correção da memória”, para o que vou fazer o símil da lógica negativa versus positiva da que falamos os telemáticos: onde há um 0, vá logo o 1; onde ia o 1, passe a haver o 0.

Vejamo-lo com exemplos:

Em fala espanholega conservavam-se as formas “estes” e “eses” frente às irregularidades castelhanas de “estos” e “esos”. Na nova lógica (do absurdo), os falantes de galespanhol ou neocastrapo dizem “estos” e “esos” no lugar de “estes” e “eses”, corrigindo assim o “recordo do mal dito”.

Os espanholego-falantes mantinham as formas “dea/n” e “estea/n” de dar e estar frente a “dé/n” e “esté/n” de verbos plenamente coincidentes como os do castelhano. Agora o neocastrapismo leva os galespanhol-falantes a pronunciarem “dé/n” e “esté/n”.

Se antes em espanholego não se pronominalizavam muitos verbos, e dizia-se “eses comieron y bebieron todo”, agora em galespanhol escutam-se horrores como “esos se baixaron o programa”. De histórica pode-se qualificar a asneira do ministério galego das pescas e o seu “Cómete o mar” (Cómete el mar). Custou-lhe uma fortuna retirar cartazes e anúncios de jornal pois os galego-pensantes percebiam o contrário de quanto se desejava promover: comermos o mar (peixe, marisco e algas). A gente pensava que o mar a comia, o qual é cruel lembrança no Impaís da Costa da Morte.

Nem em galaico-português nem em francês aparece preposição “a” (à em francês) depois de verbos de movimento, ao contrário do que ocorre com o castelhano. Frases comuns em espanholego eram “voy marchar para Coruña” ou “vengo traer el dinero”. Isso castigava-se na escola (grande castelhanizadora), de maneira que a lógica negativa já instalou o “a” mesmo nas frases dos locutores da CRTVG: os políticos dizem sem parar “Vou a facer unha proposta” e os locutores “Imos a deitar-nos”.

Por não seguirmos até ao cansaço na apresentação do desastre, finalizemos com o caso do cómodo tempo verbal mais-que-perfeito galego. Ele ajudou a que se aceitasse “Cuando llegué, él ya marchara” frente a “Cuando llegué, él ya se había marchado”. Essa era grave falta para correctores da “Lengua del Imperio”, punia-se; pelo que no desnorteio dos neocastrapistas aparece como conveniente dizer “Os orzamentos xa se habían negociado”…

Bem. Mais uma vez, nestas páginas acolhedoras de Palavra comum atrevi-me a chamar a atenção dos estudosos da dinâmica das línguas sobre o que venho a observar desde há anos. Mesmo atrever-me-ia a fazer um “dicionário de neocastrapo”… Mas vamos logo deixar tal trabalho para filólogos, e permitam-me os pacientes leitores uma sugestão:

Que tanto os professores como os locutores cumpram com o seu dever. Certamente que a pressão do castelhano é esmagadora, mas se a gente for consciente do que soa bem ou mal em cada idioma, não haveria lógica dupla, positiva e negativa: zeros sempre seriam 0s e uns sempre ficariam como 1s, com independência do idioma.

Não sei se gostaram do símil, porém pouco mais se lhe pode exigir a um intruso nestes assuntos das linguagens humanas (quando o próprio da sua formação académica são as linguagens de máquina).

[Palavra comum – Artes de letras da lua nova, 01/09/2015]

A bandeira nacional da Gallaecia

Palavra comum é uma publicação dirigida a fazermos comum um espaço de cultura, além de fronteiras artificiais. Permita-se-me logo recuperar para ela uma nota vivencial que junta tudo em termos de vida, do que se faz vivendo: comer, viajar, falar, sonhar com as pálpebras fechadas ou abertas.
Há mais de sete anos que a escrevi a gentil demanda do Eixo Atlântico, conformado pelas principais cidades da euro-região Galiza-Norte de Portugal. E ainda vale, como valerá, porque as circunstâncias essenciais não mudaram.
Contudo, já fecharam três negócios que juntavam galegos e portugueses na capital da União Europeia: o restaurante Madredeus, a butique Gallaecia de delikatessen galegas e a vizinha livraria Orfeu. C’est la vie…

Bruxelas, Janeiro de 2008, Rue des deux Eglises, restaurantezinho de cuisine portugaise. Sentam à mesa dois amigos, um deles criado entre Ferrol e Pontedeume; o outro, entre a Foz do Douro e o Porto. Vêm de ver uma magnífica exposição em Bozar sobre as descobertas do mundo e a participação portuguesa nelas. A conversa, geográfica, segue por cima de bom vinho e melhor bacalhau.
O empregado entra nela, prudente e distante ante a sabedoria que mostram aqueles “doutores”, muito viajados, e, quando se dão conta, os três estão a falar de grelos, da saudade pelos grelos. O empregado confessa que, por vezes, sem perguntar muito de onde vieram, consegue grelos na loja de legumes dum marroquino. Também se fala duma loja já clássica em Bruxelas, de clássico nome, Gallaecia, onde nunca faltam grelos em lata, preparados para matarem morrinhas estomacais.
A seguir, os amigos vão traçando o mapa do mundo onde os grelos existem para definirem país: o Ocidente asturiano, o Berço, a Sanábria, Galiza, Trás-os-Montes, o Minho, o Douro, terras ainda além do Douro. E às famosas folhas do nabo juntam peixes: principalmente bacalhau e pescada.
O da Ferrolterra lembra tempos de estudante em Madrid e recorda um túnel da estrada geral da Castela, em Vilafranca do Berço. Esse túnel, perto da entrada á Galiza oficial, era chamado “a Cortina de Grelos” quando a Europa, agora unida, estava dividida pela Cortina de Ferro.
O da Foz do Douro põe cara de transcendência para pronunciar uma frase portuguesíssima:
– Quanto português terá morrido no Japão ou na Índia a sonhar com um prato de pescada com grelos!
E o seu colega, para assombro do empregado, define, rotundo:
– A pescada com grelos é a bandeira nacional das terras que formaram a antiga Gallaecia…
Em Bruxelas constituiu-se uma “associação cultural galaico-portuguesa” de nome que não deixa lugar a dúvidas: Couto Mixto.
Da capital da União Europeia vê-se a Europa formada pelas suas regiões naturais, e pelas euro-regiões que superam as fronteiras felizmente derrubadas. Entre estas, como exemplo de esperança numa União frutífera, contempla-se a que formam o Norte de Portugal e a Galiza: terras coloridas dum verde tenro e fresco como o do legume da historieta bruxelense, abertas ao longo duma delgada raia imaginária que o Couto Mixto alargou durante séculos.
Essa euro-região está duramente marcada pelo clima e a geologia, pela geografia, pelo vinho claro e o granito escuro dos espigueiros e os paços, pela genética e a toponímia, pelas sardinhas e o polvo; por uma maneira de trabalhar calada e rija que forma parte da epopeia ibero-americana; pela fala que se fez língua portuguesa caminho do Sul e a partir de Lisboa ganhou quatro continentes.
A união das gentes entre a Ribeira atlântica do Douro e a Marinha cantábrica de Lugo é tão natural como o nevoeiro que às vezes cobre o Finis Terrae europeu e traz confusões às mentes. O seu fado comum –apesar das névoas– é viverem em rede, em contínuo movimento sobre estradas de grande capacidade e caminhos-de-ferro de alta velocidade, a fazerem negócios e cultura.
A partir do Eixo Atlántico que lhes dá comum ilusão, vai-se desenvolvendo a malha que lhes dá coesão. Naturalmente…

[Palavra comum – Artes de letras da lua nova, 24/06/2015]